setembro 22, 2014

Meu namorado quer ser meu escravo, mas eu não gosto da ideia!

Pergunta:
Tenho 19 anos e um namorado maravilhoso, que eu sou muito apaixonada. Meu namorado é pessoa mais gentil, doce e carinhosa que conheci há algum tempo e sei que ele realmente se preocupa comigo, e isso é totalmente recíproco. A coisa é que ele tem alguns fetiches loucos... não exatamente loucos, mas ele realmente gosta de fazer coisas como BDSM, onde ele quer a ser meu "escravo". Eu não sei muito o que fazer. Mas hoje ele me enviou uma lista de coisas por email; tipo... várias maneiras de torturá-lo como meu escravo, um monte de "humilhações", punições, etc. Eu me senti esquisita porque não é algo que eu tenha vontade de fazer com ele. Eu tenho só 19, ele 18, e quero ter um relacionamento normal, não todas essas coisas estranhas. Talvez quando eu for mais velha. Então, minha pergunta é: como eu digo isso a ele? Eu sei que se eu disser que "Eu não estou pronta para esse tipo de coisa", ou mesmo que eu não gosto, ele ia ficar sem graça e infeliz, sei lá... talvez deixasse de gostar de mim. Eu não quero fazer isso com ele! Eu realmente quero vê-lo feliz, mas se eu me sentir pressionada vou ficar péssima. Então, como eu deveria dizer a ele sem fazer ele se sentir mal? 

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Muitas vezes um monte de falsas suposições podem feitas quando as pessoas falam sobre BDSM. Vou começar com um pequeno glossário para ter certeza de que estamos todos falando da mesma coisa!

setembro 08, 2014

BDSM e abuso: estabelecendo limites

Quando duas pessoas estão num encontro que envolva BDSM, imagine se um estranho entrasse no meio dessa cena. Alguém totalmente desavisado e que caiu de paraquedas certamente pensaria: é um abuso, uma violência. Pois sim, a ideia que vou trabalhar com vocês é o que está por trás da questão vulgarmente aceita:  BDSM "parece" abuso. Algumas práticas podem deixar hematomas, vermelhões e outros sinais físicos de dor. Por isso, um dos maiores medos que os baunilhas (pessoas de fora da comunidade BDSM) podem ter sobre o sadomasoquismo é que, mesmo consensualmente, o BDSM permita violência. Ou pior, pode usado como uma máscara para abusos.

Algumas relações BDSM são abusivas? Infelizmente, algumas são. Mas veja bem, abusos acontecem em qualquer tipo de relacionamento. Aquele casamento de conto de fadas pode mascarar práticas de humilhação pública - na família da esposa, por exemplo - sem despertar suspeitas nem mesmo da vítima. Mas, tão importante quanto isso, é saber que há muitas pessoas da comunidade BDSM que trabalham ativamente contra o abuso e a violência.


Quero advertir, antes de eu falar sobre isso, que a "comunidade BDSM" é muito diversificada. São muitas "comunidades BDSM" numa mesma comunidade. Existem grupos paulistas, sulistas, nortistas, grupos apenas na internet, grupos contra a internet, grupos contra grupos, grupos com prevalência de MaleDom (Dominação masculina) e outros FemDom (Dominação Feminina), podolatria. Além disso, há muitas comunidades BDSM ao redor do mundo, e dentro desses polos, existem várias comunidades menores. E todas as comunidades BDSM que existem são preenchidas com muitas vozes diferentes, e todas essas vozes vão concordar e discordar entre si em níveis distintos. Visite o Fetlife, uma rede social específica para fetichistas, pra você ter uma ideia. 

Mas pude observar alguns pontos em comum em quase todas as comunidades BDSM que eu frequentei e, no mínimo, tomei parte em algumas discussões e as observei: Muitos, senão a grande maiorias dos kinksters, são os mais potencialmente preocupados em evitar abusos. E um desses pontos em comum é que vários (senão a maioria dos) kinksters estão muitíssimo preocupados com a consensualidade. Sem dúvida alguma, por conta da evidência constante das práticas e das discussões claras em torno do que é seguro, são e consensual, a comunidade BDSM contém uma proporção muito maior de pessoas que se preocupam com o abuso do que o resto das pessoas "normais". 

Vou te dar um exemplo simples: É essencial que se estabeleça uma comunicação super objetiva, sem rodeios ou mensagens subliminares, para garantir que o consenso esteja claro e legitimado por ambos os parceiros. O que é consenso? Consenso é você ter total certeza sobre o que está acontecendo e, a partir desse conhecimento, permitir que alguém atue sobre você. Pra que exista consenso, é essencial que a interpretação da fala e dos acordos  seja eficaz. Partindo dessa estratégia positiva-comunicativa, alguns dispositivos foram desenvolvidos dentro da comunidade BDSM: safewords são o exemplo mais comum desse tipo de tática de comunicação anti-abusiva. 

Nessa linha, explico aqui quatro diretrizes essenciais que anunciam a diferença entre BDSM e abuso, e algumas questões importantes pra que você não se deixe levar por lorotas e não sofre violência - e, se avistar algum abuso, denuncie:



Consentimento
BDSM é consentido; abuso não é. 

-Mesmo assim, pergunte-se: os atos estão de acordo com o consentimento, com o que foi acordado? Todos os participantes sabem do consentimento? 
-Mesmo assim, pergunte-se: O parceiro te coagiu ou te seduziu pra que você consentisse? Por acaso ninguém estava preocupado com algum tipo de "punição" caso não consentisse? 


Intenção 
Um parceiro BDSM tem a intenção de ter um encontro mutuamente agradável e prazeroso; um parceiro abusivo não. 

-Mesmo assim, pergunte-se: Todos da cena parecem satisfeitos? Mesmo os masoquistas ficam felizes e demonstram satisfação na iminência de práticas mais doloridas. 


Zero danos
Um parceiro BDSM minimiza o dano causado por suas ações; um parceiro abusivo não. 

-Mesmo assim, pergunte-se: Será que os todos os parceiros sabem o que estão fazendo ou é a primeira vez que praticam? Será que eles aprenderam a exercer suas atividades de forma segura? 
-Mesmo assim, pergunte-se: Os parceiros sabem dos riscos potencias das práticas usadas?


O sigilo é desnecessário e protege abusadores 
Esse é o item mais díficil da lista, pois o abuso é sempre feito em segredo e, infelizmente, muitos praticamentes de BDSM escondem suas atividades. Por ser uma atividade marginalizada, estigmatizada e cercada de preconceito, os BDSMers muitas vezes preferem o segredo também. Mas esta é uma das vantagens de existir uma comunidade ativa, mesmo no undreground: todos olhamos uns para os outros, os segredos não são necessariamente "segredos" entre nós, praticantes. 

-Mesmo assim, pergunte-se: os parceiros tem algum vínculo com a comunidade BDSM local, ou nunca foram vistos? São pessoas totalmente desconhecidas? Saber-se minimamente protegido por uma comunidade experiente minimiza potencialmente os riscos de atividades abusivas. 


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Pessoalmente, nunca conheci alguém da comunidade que não fosse cuidadoso e ciente de seu dever de obtenção do consentimento autônomo e responsável dos seus parceiros. Claro que existem pessoas que não se importam com o consentimento -  mesmo dentro do meio BDSM. Infelizmente os abusadores estão por aí. Resta ter acuidade emocional e olho vivo para identificá-los e, por favor, denunciá-los.

De qualquer forma, o meio kinkster não permite e não suporta abusadores, tanto quanto qualquer outra comunidade minimamente civilizada. A única diferença entre nós e outros grupos que manipulam linguagem erótica e/ou sexual é que usamos meios como dominação, submissão e jogos de poder, incluindo dor consensual. Dor e poder para nós não são intrinsecamente abusivos - mas elementos a serem considerados dentro de um contexto de plena compreensão das necessidades psicológicas e sexuais dos envolvidos.

Então minha gente, peço que leiam sobre o assunto, sejam menos preconceituosos e nos aceitem como parte importante da luta contra o abuso e a violência. Temos muito a acrescentar apesar de sermos tão freqüentemente acusados de esconder  ou aceitar abusos, não? Afinal, nosso modus operandi desenvolve mecanismos efetivos anti-abuso e isso reflete o trabalho constante que temos contra a violência abusiva. Novamente digo: não posso tomar partido de todas as comunidades BDSM, nem posso falar por todas as pessoas que tiveram experiências sadomasoquistas. 

Sei que qualquer tipo de relacionamento (BDSM ou baunilha) é suscetivel a situações abusivas. As quatro iniciativas anti-abuso que listei acima  são um caminho prático pra ficar atento e evidenciam que muitos de nós, BDSMers, trabalhamos para enfatizar e espalhar essas ideias tanto quanto possível. 

agosto 16, 2014

Vamos nos empoderar DE VERDADE?

Oi meninxs! 

Estou muito feliz com a visita de vocês! Sim, sou procrastinadora e larguei o blog de mão um tempo... ok, ok... eu me justifico: entrei de cabeça no BDSM e isso me custou muito tempo, suor no latex, mente fervendo e muito aprendizado. Aqui no blog tem um pouco da minha trajetória e no meu primeiro livro eu conto um pouquinho da minha experiência como dominatrix profissional durante 10 anos. Foi - e tem sido - intenso.

O resultado? Sou uma nova mulher. Mesmo. Tenho amor pelo meu gênero, autoconfiança, me sinto linda do alto dos meus 36 anos, autosuficiente, na irmandade com outras mulheres, venci a timidez e hoje presto muito mais atenção ao que MERECE  a minha atenção e energia.


BDSM é pra todo mundo. E o FemDom um mecanismo de empoderamento feminino transformador. To começando a bater esse papo aqui gente, no blog mesmo. Um lugar mais dinâmico, mais pinga-fogo...e espero a opinão, mete-colher, afronta, parabéns, correções e participação de todxs aqui no *Guia pra empoderamento na prática*!



Toda mulher pode entrar no mundo dos fetiches e do BDSM. 


Não precisa empunhar um chicote nem se vestir de couro pra se beneficiar desse mundo, sabia? 


Sentir-se poderosa é necessário.

Estou muito intrigada com as perguntas e prometo uma coisa: Ser muito sincera e não passar a mão na cabecinha de ninguém. SINCERIDADE com leveza (pode? poooode!) é por aqui mesmo. É disso que a gente precisa. Tem dúvidas? Manda brasa!


agosto 12, 2014

Texto de Colaborador: Sobre o nascimento do SSC e as confusões com relação à aplicação deste termo no BDSM (S/M) contemporâneo

*Colaboração da Érica Araújo 

Como interessada no mundo BDSM há anos e pesquisadora do tema, especialmente tendo por base a literatura produzida por grupos como os Leatherman, GMSMA (Gay Male S/M Activists) e por autores como Jay Wiseman, Ambrosio, David Stein e outros, tem me incomodado a forma como más traduções e o desconhecimento da trajetória do SM (que hoje convencionamos chamar de BDSM) levam a praticantes desinformados e de comportamento temerário.

Obviamente que não farei uma generalização. Possuímos no Brasil grandes praticantes, renomados, de quem ninguém poderia desclassificar a postura como antiética ou temerária. Há os que empreendem esforço educacional visando uma espécie de direcionamento para os novatos, tanto para que estes consigam determinar como e onde encontrar a satisfação de seus desejos, quanto para evitar que caiam nas mãos de maus praticantes colocando a si mesmos em risco.

Não trato destes. 

agosto 04, 2014

de ser quem eu sou de estar onde estou


E fui andando sem pensar em voltar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu