Bondage para stress e ansiedade

Na adolescência, após uma fratura do femural, fiquei presa numa espécie de bondage de gesso, deitada por seis meses ou mais. Já adulta, como Dominatrix, conduzi centenas de sessões de bondage, facilitando a prática de outras pessoas, consensualmente. Aqui uso a minha experiência pessoal e profissional para mostrar como o Bondage auxilia a consciência do seu estado corporal - e no controle dos sintomas da ansiedade.

Caso você procure Bondage num dicionário ou num tradutor, verá que seu significado vai desde escravidão a restrição - e tudo num contexto sadomasoquista. 

Geralmente esses significados teóricos estão desprendidos da realidade do praticante, ou aliados, obrigatoriamente, a uma pedagogia erótica. Mas na real? Cordas são apenas cordas e algemas são apenas algemas - nós que contextualizamos os objetos e os reinterpretamos.

Por exemplo: pra alguém que nasceu num ambiente violento e de repressão policial autoritária, estar preso por algemas causa terror. São evocadas emoções muito prejudiciais à saúde mental. Já para outros indivíduos, principalmente mulheres, praticar bondage é colocar-se numa situação que reforça a objetificação corporal, onde experimenta-se a contragosto a dominação social e sexual ao qual nossos corpos estão submetidos a séculos. Mas, para outros privilegiados, homens e mulheres, as cordas e as algemas já não tem mais significado violento: a cultura já os contextualizou noutros discursos, geralmente eróticos, de prazer ou entretenimento. Caso você seja um desses privilegiados, pode beneficiar-se da prática de bondage e transcender, inclusive, esse universo simbólico do erotismo.

O bondage confere um treino de percepção do corpo naquele exato instante. Qual instante? O bondage ajuda a perceber. São os segundos que antecedem uma situação limite, uma explosão de quem está diariamente algemado no excesso de trabalho, na maternidade; de quem tem claustrofobia ao usar elevadores, quem sofre ao ver as contas chegando e o saldo negativo, quem está no trânsito o dia inteiro, etc. São prisões muito fortes, pois além de impor seu código corporal, também controlam a mente. Mas, embora você não racionalize esses cárceres sociais, seu corpo percebe. E como ele reage? Fugindo como um animal descontrolado, cheio de noradrenalina e ansiedade. 

Controlar o corpo, a respiração e os batimentos cardíacos não são tarefas fáceis, principalmente se você, no seu dia-a-dia, não consegue perceber que seu corpo TAMBÉM está preso a determinadas pedagogias restritivas: caso esteja no ambiente de trabalho, entre muitas pessoas, é bem difícil sair da sua cadeira e deitar-se para relaxar e respirar, por exemplo. Você está preso àquela convenção trabalhista, ao julgamento de seus colegas, ao olhar do seu chefe. Caso esteja num avião, não há outro local onde colocar seu corpo para diminuir a ansiedade do vôo. Pra onde sair? Pular do avião? Você está preso naquele ambiente. Ou, se por acaso, está caminhando no centro da cidade e seu coração acelera? Dificilmente sentará na calçada para respirar fundo. Também não vai parar o carro no trânsito para respirar melhor... resumindo, a vida cotidiana já prende o corpo em determinadas situações

Praticar bondage e induzir, homeopaticamente, essa sensação de desconforto, te ajuda a lidar com esse momento exato que antecede o descontrole. Como tomar as rédeas da situação e não sofrer tanto com os sintomas ansiosos? Como reagir, com progressiva diminuição de sofrimento, a situações em que você não pode se retirar para o silêncio ou não pode fazer uma ásana? Pois o bondage sugere uma exposição sistemática a um desconforto praticamente indolor, num ambiente controlado e seguro. Isso dá ao praticante uma familiaridade consciente com essas emoções, estendendo uma espécie de maturidade e confiança às situações opressoras do dia-a-dia - essas, que muitas vezes não percebemos como os bondages sociais que são.

Agora ao vídeo, e logo abaixo algumas indicações de segurança para a prática. Bondage pode ser perigoso. Lembre-se: aqui não estou tratando de uma atividade performática, então você deve começar numa posição confortável e extremamente segura para suas articulações, orgãos internos e respiração. Nada de joguinhos sensuais ou prepotência física ao usar práticas que demandam clareza, comunicação efetiva e consensualidade!




MEDIDAS DE SEGURANÇA:

1 - A primeira recomendação é que quando as amarras sejam feitas com algemas, tenhamos sempre perto e à mão as chaves para utilizar com rapidez no caso de uma emergência. Nunca as afaste, esconda ou jogue no chão já que você não sabe se precisará usá-las com rapidez. Se são cordas, uma tesoura.

2 - Jamais deixe uma pessoa amarrada sozinha em um quarto, pois diante de uma emergência estará impossibilitada de reagir. Este ponto é fundamental se quiser praticar o Bondage com segurança.

3- Você deve prestar muita atenção ao tipo de amarras que realiza e à força com que o faz. Se as cordas estiverem muito apertadas em zonas como o peito, isto poderia impedir a correta respiração do submisso, o que poderia ocasionar um acidente. Igualmente nunca passe nenhuma corda ou atadura ao redor do pescoço, pois em um descuido poderia ocorrer asfixia.

4- Em toda a prática de BDSM convém sempre fixar com antecipação alguma palavra de segurança, que indique à outra pessoa que algo não está bem e que é hora de parar. Este é um método eficaz para manter a segurança.

Lembre-se de que, ainda que seja uma prática simples, é importante manter a segurança a todo momento e assim evitar correr riscos desnecessários.

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