Meu namorado quer ser meu escravo, mas eu não gosto da ideia!

Pergunta:
Tenho 19 anos e um namorado maravilhoso, que eu sou muito apaixonada. Meu namorado é pessoa mais gentil, doce e carinhosa que conheci há algum tempo e sei que ele realmente se preocupa comigo, e isso é totalmente recíproco. A coisa é que ele tem alguns fetiches loucos... não exatamente loucos, mas ele realmente gosta de fazer coisas como BDSM, onde ele quer a ser meu "escravo". Eu não sei muito o que fazer. Mas hoje ele me enviou uma lista de coisas por email; tipo... várias maneiras de torturá-lo como meu escravo, um monte de "humilhações", punições, etc. Eu me senti esquisita porque não é algo que eu tenha vontade de fazer com ele. Eu tenho só 19, ele 18, e quero ter um relacionamento normal, não todas essas coisas estranhas. Talvez quando eu for mais velha. Então, minha pergunta é: como eu digo isso a ele? Eu sei que se eu disser que "Eu não estou pronta para esse tipo de coisa", ou mesmo que eu não gosto, ele ia ficar sem graça e infeliz, sei lá... talvez deixasse de gostar de mim. Eu não quero fazer isso com ele! Eu realmente quero vê-lo feliz, mas se eu me sentir pressionada vou ficar péssima. Então, como eu deveria dizer a ele sem fazer ele se sentir mal? 

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Muitas vezes um monte de falsas suposições podem feitas quando as pessoas falam sobre BDSM. Vou começar com um pequeno glossário para ter certeza de que estamos todos falando da mesma coisa!



Kinky 
A maioria das pessoas usam a palavra "pervertido" ou "doente" para se referir a um comportamento sexual considerado "anormal" em nossa sociedade. Embora muitos chamem esses comportamentos de perversões (que é um juízo de valor, não uma definição!), a maioria desses desejos são tecnicamente chamados parafilia, que significa simplesmente fora da norma. Isso não significa que eles são anormais: "normal" é um termo bastante arbitrário. Não muito tempo atrás, o sexo oral foi considerado anormal ou desviante, como era a masturbação, masturbação mútua, sexo anal e muito mais. Por isso, muitas pessoas que consideram suas práticas sexuais "fora da norma" optam por usar o termo kink para descrever ou identificar-se. 

Fetiche
Um fetiche é, por definição conceitual, um termo que se refere a um objeto inanimado que estimula o desejo sexual em uma pessoa, como um sapato, uma roupa de latex, uma lingerie, uma cueca ou qualquer outro objeto. 
É importante não confundir um fetiche com uma preferência. Fetiches são sobre objetos, não exatamente sobre os comportamentos. Geralmente os fetiches estão profundamente enraizados na infância: por exemplo, um homem que desenvolve uma forte predileção por sapatos na vida adulta, porque a sua mulher usa sapatos que ele acha lindos nela, pode não ter um fetiche por sapatos, porque esse comportamento tem como fonte exatamente sua parceira, e não o sapato em si. Da mesma forma, uma mulher cujo marido teve um braço amputado e desenvolve apreço estético e excitação pelo seu parceiro nessas condições, não necessariamente torna-se uma devotee

BDSM 
Normalmente, o B significa Bondage, o D dominação, o S & M sadomasoquismo. Bondage geralmente envolve jogo sexual com cordas e acessórios para restrição de movimentos, como camisas de força, cintas, ataduras e até filme plástico. Dominação (e seu oposto necessário, submissão) é um termo que faz parte do jogo de poder, ou às vezes chamado de "troca de poder", em que os parceiros assumem papéis em que um está no comando, o "top", e o outro é o submisso, o "bottom". 
Frequentemente, mas não sempre, termos como "mestre" e "escravo" são usados ​​pra nomear esses papéis. 
Nem todas as pessoas que têm um fetiche por ser escravo necessitam de um jogo de poder. Nem todas as pessoas que fazem jogo de poder necessitam dos elementos materias que definem a escravidão, e assim por diante. Nem todas as pessoas que gostam da sensação de serem açoitadas ou ter seus mamilos presos incorporam dominação e submissão num jogo. Embora essas coisas sejam, na maioria das vezes, agrupadas, alguns praticantes nem chegam a usar o termo BDSM pra defini-las.

Role play
Lembra quando você brincava de médico ou escolinha quando era criança? Role-play é a mesma coisa, exceto que, neste contexto, é feito entre adultos (obviamente!) e durante uma situação erótica.

Consentimento
Essa é a palavra-chave para quem pratica BDSM (e qualquer tipo de sexo) com sensatez e segurança. O que isto significa é que todos os envolvidos estão plenamente informados do acordo e negociaram as atividades. Mesmo em cenários de dominação e submissão, o submisso deve consentir ativamente o que está sendo feito: se ele não aceita, temos aí o abuso, o sexo não consensual, o estupro, a violência (mais sobre bdsm x abuso aqui). 
A maioria das pessoas que pratica BDSM usa safeword, uma palavra ou sinal pronunciado se a outra parte está fazendo algo que não é confortável, agradável ou aceitável. Se uma pessoa usa uma palavra de segurança, a ação deve cessar imediatamente. Muitas pessoas que praticam esses relacionamenos alternativos à "norma" subscrevem o lema seguro, são e consensual, que significa que o jogo mantém níveis de segurança físicas e emocionais, que está sendo praticado conscientemente e que todos os envolvidos são capazes de dar consentimento (um adulto, com idade legal de consentimento, intelectual e emocionalmente capaz de enxergar os limites e mantê-los).
Nenhuma das opções acima é anormal ou desviante quando praticada consensualmente, dentro das limitações e desejos de todos os envolvidos e, como qualquer atividade sexual, no tempo e lugar certos. 

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O que faz com que as pessoas queiram praticar BDSM? 
Segundo o Instituto Kinsey, que detem e reproduz alguns dos paradigmas sobre comportamento sexual na atualidade - e isso, claro, pode ser revisado num futuro recente através de novas pesquisas científicas - é de suma importância reconhecer que uma pessoa que tenha uma fantasia ou pratique qualquer um dos itens que eu citei no pequeno glossário não escolheu o desejo, nem pode controlá-lo voluntariamente. Esses comportamentos são desenvolvidos muito cedo na infância, tornando-se parte de um mapa erótico-sexual em processo. 
No entanto, embora o que o Instituto diga seja verdadeiro em muitos casos, não é em todos eles. Seria muito melhor pensar que, embora não possamos escolher nossos desejos, podemos muitissímo bem escolher os nossos comportamentos ou nossas ações. Então, alguém que deseja praticar BDSM e o seu parceiro não consente, ou eles decidem que não querem entrar juntos nesse jogo, essa pessoa tem a plena capacidade (e responsabilidade) de optar pelo respeito ao seu parceiro. 
Além disso, alguns destes comportamentos e preferências sexuais são baseados no cotidiano e, muitas vezes, não tem nada a ver com nenhum dos fatores Kinsey. Não é incomum, por exemplo, para uma mulher que é a chefe de um negócio, descansar um pouco do seu papel de comando, assumindo numa relação mais íntima um papel de submissa para relaxar e ter prazer. Isso, é claro, não quer dizer que ela não pode, previamente, escolher suas próprias ações: nenhuma fantasia sexual - ou qualquer pessoa - pode forçar algum tipo de ação sobre ela, e nem o mais forte e insaciável desejo deve servir de desculpa para atos irresponsáveis. 
Assim, no caso de seu namorado, embora possa parecer que ele é jovem demais e meigo demais e querido demais pra querer algo tão "louco", é bem provável que uma parte dessa história esteja sendo construída na vida dele há muito tempo. E  isso é completamente normal. 

Por que as pessoas gostam de BDSM? 
As pessoas gostam BDSM assim como gostam de qualquer outro tipo de relação. E os motivos são inúmeros. 
Pra começar, o BDSM tende a ser muito criativo, dinâmico e dramático. Esse conjunto de práticas é um facilitador que permite às pessoas expressarem várias partes de si mesmas e realizar fantasias que não poderiam em outras situações. O BDSM permite que algumas pessoas explorem certas estruturas de poder existentes no cotidiano, dentro e fora do quarto, ou para experimentar papéis sexuais que de outra forma seriam problemáticos ou difíceis de negociar em outras áereas de suas vidas. 
Na maioria das vezes é multi-sensorial, na medida em que oferece uma infinidade de sensações em todas as áreas do corpo, não apenas nos órgãos sexuais. 

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A questão de como realmente gerenciar os relacionamentos em que o BDSM é um fator importante é um assunto polêmico. Um monte de sexólogos e psicólogos debatem esse tema. Alguns sustentam a opinião de que este comportamento ou desejo deve se restringir apenas à fantasia, e que uma pessoa com esses anseios deve passar por um tratamento psicológico. Outros acham que na maioria dos casos é algo que, com um pouco de estudo e abrindo mão de preconceitos, pode se tornar um aspecto benéfico e agradável da sexualidade. 
Isto é naturalmente mais simples quando ambos os parceiros querem participar. Se esta é uma via que seu namorado quer seguir mesmo, ele vai precisar se acostumar com alguma forma de lidar com essa faceta da sua sexualidade num relacionamento. E precisará falar com o parceiro, seja você ou outra pessoa, para chegar a acordos sobre seus desejos, necessidades e limites. Se não é algo que lhe interessa, ou se faz você se sentir desconfortável, seja honesta com você mesma e com seu namorado sobre isso. 
Se você falar a ele o que você me disse - que você se importa com ele - mas que agora BDSM a faz sentir-se desconfortável e, principalmente, que você não vai tratá-lo como um pervertido ou doente, a tendência é que tudo fique bem. Nem todo casal é 100% compatível. Algo que você e ele podem tentar discutir é o quanto isso realmente é uma necessidade para ele. Não é incomum os casais perceberem incompatibilidade sexual nesta área e se, de fato, é realmente o que ele quer, você pode ter que avaliar o que isso significa para você. Você ficaria confortável, por exemplo, com ele ter encontros com outras pessoas para falar sobre isso ou mesmo para a prática, agora ou no futuro? Da mesma forma, ele se sente capaz de deixar o BDSM de lado por agora e ter um relacionamento com você, sem ceder a isso? Esses tipos de problemas são coisas que vocês precisam conversar e não empurrar pra baixo do tapete.

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Sendo muito sincera, eu entendo que para a maioria das pessoas que acham o BDSM essencial pra montar o combo "felicidade e bem estar", nada disso pode ser simplesmente engavetado: é uma parte delas, das suas histórias, da sua formação sexual; e se for ignorada, uma parte vital da sua identidade também está sendo ignorada. 
Como acontece com qualquer problema de relacionamento e DRs da vida, vocês precisam parar e tentar entender os desejos de ambos, definindo necessidades e limitações. Se você não está interessado neste tipo de jogo não deve concordar com ele, nem ficar impelida a experimentar simplesmente porque ele gosta e você não. Se ele realmente quer seguir por este caminho ele terá que continuar a lidar com consentimentos e limites, portanto, você talvez não seja a primeira pessoa a ter essa conversa com ele - e nem a última. Mais uma vez, como em qualquer relacionamento, você terá que olhar os seus desejos e necessidades e pensar se é compatível com seu namorado, pois ninguém deve fazer nada que não está afim de fazer. 
Cada um de vocês - espero - é capaz de expressar-se emocional, intelectual e sexualmente de uma forma autônoma e só o fato de discutir sobre BDSM vai te permitir conhecer mais quem você realmente é, ou em que fase da sua vida você está. Enfim, lembre-se: a sexualidade humana é uma vastíssima área de variedade emocional, psicológica, intelectual e fisiológica, e varia tanto quanto tudo o que fazemos como indivíduos. 
Se tratarmos com delicadeza, respeito e pensando em cuidar dos outros e de nós mesmos, lidando com segurança e responsabilidade, praticando o que nós e nossos parceiros achamos confortável, e fazê-lo com honestidade e diálogo, quase tudo o que fazemos pode ser "normal". Se a gente não segue essas regrinhas de ouro, mesmo as coisas mais normais como um beijo, mãos dadas, ou até um abraço pode ser prejudicial. 

Não é um ato específico que determina a normalidade, mas como o praticamos!


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4 comentários:

  1. Comigo aconteceu a mesma coisa só que ao contrario. sorte que eu conversei com a minha esposa logo no inicio e conseguimos nos acertar.
    parabe´ns pelo site!!!!!

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  2. muito elucidativo
    estava esperando uma história dessa pra tirar duvidas
    Alexandre - Cuiabá

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  3. Perfeito, eu sou Podo e tbm tenho muitas fantasias BDSM, tenho 21 e minha namorada 18. Costumo ir com calma, ela não sabe nada sobre esse mundo BDSM, começamos com a podolatria e ela aceitou muito bem, apesar de não se sentir confortavel no começo... agora ela adora! haha! Eu não saio abrindo o jogo e precionando... vou plantando isso na relação com o tempo, com uma conversa descontraida, ou uma brincadeira... assim não tem erro.

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  4. Continuam juntos? Aconteceu algo parecido com meu ex, até me animei com a ideia, mas ele sempre dizia que eu deveria ser mais imponente e o relacionamento acabou se tornando exaustivo após alguns meses. Resultado: terminamos sem discussões, sem estresse, bateu até uma sensação estranha de "acabou mesmo?" e de que poderia ter funcionado melhor se ambas as partes cedessem um pouco mais. Ainda gosto de um ou outro tópico do bdsm, mas acho que se deve frisar MUITO que ele deve ser introduzido de forma bem gradual, para que seja divertido e não uma corrida para impressionar alguém. Ou então, se quiser uma cena rápida, procure alguém que já está no meio.

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