BDSM e abuso: estabelecendo limites

Quando duas pessoas estão num encontro que envolva BDSM, imagine se um estranho entrasse no meio dessa cena. Alguém totalmente desavisado e que caiu de paraquedas certamente pensaria: é um abuso, uma violência. Pois sim, a ideia que vou trabalhar com vocês é o que está por trás da questão vulgarmente aceita:  BDSM "parece" abuso. Algumas práticas podem deixar hematomas, vermelhões e outros sinais físicos de dor. Por isso, um dos maiores medos que os baunilhas (pessoas de fora da comunidade BDSM) podem ter sobre o sadomasoquismo é que, mesmo consensualmente, o BDSM permita violência. Ou pior, pode usado como uma máscara para abusos.


Algumas relações BDSM são abusivas? Infelizmente, algumas são. Mas veja bem, abusos acontecem em qualquer tipo de relacionamento. Aquele casamento de conto de fadas pode mascarar práticas de humilhação pública - na família da esposa, por exemplo - sem despertar suspeitas nem mesmo da vítima. Mas, tão importante quanto isso, é saber que há muitas pessoas da comunidade BDSM que trabalham ativamente contra o abuso e a violência.


Quero advertir, antes de eu falar sobre isso, que a "comunidade BDSM" é muito diversificada. São muitas "comunidades BDSM" numa mesma comunidade. Existem grupos paulistas, sulistas, nortistas, grupos apenas na internet, grupos contra a internet, grupos contra grupos, grupos com prevalência de MaleDom (Dominação masculina) e outros FemDom (Dominação Feminina), podolatria. Além disso, há muitas comunidades BDSM ao redor do mundo, e dentro desses polos, existem várias comunidades menores. E todas as comunidades BDSM que existem são preenchidas com muitas vozes diferentes, e todas essas vozes vão concordar e discordar entre si em níveis distintos. Visite o Fetlife, uma rede social específica para fetichistas, pra você ter uma ideia. 

Mas pude observar alguns pontos em comum em quase todas as comunidades BDSM que eu frequentei e, no mínimo, tomei parte em algumas discussões e as observei: Muitos, senão a grande maiorias dos kinksters, são os mais potencialmente preocupados em evitar abusos. E um desses pontos em comum é que vários (senão a maioria dos) kinksters estão muitíssimo preocupados com a consensualidade. Sem dúvida alguma, por conta da evidência constante das práticas e das discussões claras em torno do que é seguro, são e consensual, a comunidade BDSM contém uma proporção muito maior de pessoas que se preocupam com o abuso do que o resto das pessoas "normais". 

Vou te dar um exemplo simples: É essencial que se estabeleça uma comunicação super objetiva, sem rodeios ou mensagens subliminares, para garantir que o consenso esteja claro e legitimado por ambos os parceiros. O que é consenso? Consenso é você ter total certeza sobre o que está acontecendo e, a partir desse conhecimento, permitir que alguém atue sobre você. Pra que exista consenso, é essencial que a interpretação da fala e dos acordos  seja eficaz. Partindo dessa estratégia positiva-comunicativa, alguns dispositivos foram desenvolvidos dentro da comunidade BDSM: safewords são o exemplo mais comum desse tipo de tática de comunicação anti-abusiva. 

Nessa linha, explico aqui quatro diretrizes essenciais que anunciam a diferença entre BDSM e abuso, e algumas questões importantes pra que você não se deixe levar por lorotas e não sofre violência - e, se avistar algum abuso, denuncie:



Consentimento
BDSM é consentido; abuso não é. 

-Mesmo assim, pergunte-se: os atos estão de acordo com o consentimento, com o que foi acordado? Todos os participantes sabem do consentimento? 
-Mesmo assim, pergunte-se: O parceiro te coagiu ou te seduziu pra que você consentisse? Por acaso ninguém estava preocupado com algum tipo de "punição" caso não consentisse? 


Intenção 
Um parceiro BDSM tem a intenção de ter um encontro mutuamente agradável e prazeroso; um parceiro abusivo não. 

-Mesmo assim, pergunte-se: Todos da cena parecem satisfeitos? Mesmo os masoquistas ficam felizes e demonstram satisfação na iminência de práticas mais doloridas. 


Zero danos
Um parceiro BDSM minimiza o dano causado por suas ações; um parceiro abusivo não. 

-Mesmo assim, pergunte-se: Será que os todos os parceiros sabem o que estão fazendo ou é a primeira vez que praticam? Será que eles aprenderam a exercer suas atividades de forma segura? 
-Mesmo assim, pergunte-se: Os parceiros sabem dos riscos potencias das práticas usadas?


O sigilo é desnecessário e protege abusadores 
Esse é o item mais díficil da lista, pois o abuso é sempre feito em segredo e, infelizmente, muitos praticamentes de BDSM escondem suas atividades. Por ser uma atividade marginalizada, estigmatizada e cercada de preconceito, os BDSMers muitas vezes preferem o segredo também. Mas esta é uma das vantagens de existir uma comunidade ativa, mesmo no undreground: todos olhamos uns para os outros, os segredos não são necessariamente "segredos" entre nós, praticantes. 

-Mesmo assim, pergunte-se: os parceiros tem algum vínculo com a comunidade BDSM local, ou nunca foram vistos? São pessoas totalmente desconhecidas? Saber-se minimamente protegido por uma comunidade experiente minimiza potencialmente os riscos de atividades abusivas. 


***

Pessoalmente, nunca conheci alguém da comunidade que não fosse cuidadoso e ciente de seu dever de obtenção do consentimento autônomo e responsável dos seus parceiros. Claro que existem pessoas que não se importam com o consentimento -  mesmo dentro do meio BDSM. Infelizmente os abusadores estão por aí. Resta ter acuidade emocional e olho vivo para identificá-los e, por favor, denunciá-los.

De qualquer forma, o meio kinkster não permite e não suporta abusadores, tanto quanto qualquer outra comunidade minimamente civilizada. A única diferença entre nós e outros grupos que manipulam linguagem erótica e/ou sexual é que usamos meios como dominação, submissão e jogos de poder, incluindo dor consensual. Dor e poder para nós não são intrinsecamente abusivos - mas elementos a serem considerados dentro de um contexto de plena compreensão das necessidades psicológicas e sexuais dos envolvidos.

Então minha gente, peço que leiam sobre o assunto, sejam menos preconceituosos e nos aceitem como parte importante da luta contra o abuso e a violência. Temos muito a acrescentar apesar de sermos tão freqüentemente acusados de esconder  ou aceitar abusos, não? Afinal, nosso modus operandi desenvolve mecanismos efetivos anti-abuso e isso reflete o trabalho constante que temos contra a violência abusiva. Novamente digo: não posso tomar partido de todas as comunidades BDSM, nem posso falar por todas as pessoas que tiveram experiências sadomasoquistas. 

Sei que qualquer tipo de relacionamento (BDSM ou baunilha) é suscetivel a situações abusivas. As quatro iniciativas anti-abuso que listei acima  são um caminho prático pra ficar atento e evidenciam que muitos de nós, BDSMers, trabalhamos para enfatizar e espalhar essas ideias tanto quanto possível. 

2 comentários:

  1. Muito interessante domme. Realmente, não tinha pensado na proximidade tatica (posso chamar assim? *rsrsrs) que voces tem com essas praticas e por isso as identificam muito bem quando passa a ser abuso. Obrigada por compartilhar!

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  2. To ansioso aguardando seu novo livro pra comprar pra minha garota.
    Temos uma relação bem aberta mas não somos todo moderninhos, mesmo assim sinto que ela gosta quando ela começa a mandar e eu 'dou corda'. Acho que o papel do homem é esse mesmo, dar prazer pra sua mulher e antes de mais nada ter respeito um pelo outro. é uma garora de ouro e inteligente e acho que vamos até nos casar, eu pelo menos to querendo huahuahauhauah Alexandre de Cuiabá

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