Quem tem boca fode Roma

Pra falar um pouco sobre transgressores sexuais em Roma temos a seguinte premissa, super básica: o povo romano nem sabia de que se tratava o binarismo gay/hetero. Além disso, pretendo relacionar Transgressores com Identidade de gênero e, portanto, é complicado lidar com tão poucas fontes e costurar esse textículo que cita minimamente a existência romana pervertida. O povo que adorava Cesares tinha dois, isso sim, dois pares bem definidos e intrínsecos à sua Etica sexual: macho/fêmea e ativo/passivo.

Vamos começar com exemplos. Os romanos não teriam criado conceitos como transgênero, homossexualidade, bissexualidade, heterossexualidade; todos esses são construções modernas. Um cidadão de Roma teria visto uma mulher que vive como um homem como uma mulher vestida de homem. Esses conceitos não existiam na sexualidade romana - eles operavam em mundo de significados e referências diferentes de nós.

Não preciso me estender nas explicações teóricas já que somos herdeiros culturais-fractais dos Antigos do ocidente e você já "aprendeu" que o papel ativo cabia ao homem e o passivo à mulher, num espectro de sexualidade muito lógico para o povo de Roma. Outro fator interessante: Honra e moralidade (Pudicitia) estavam diretamente ligados às bocas romanas, um símbolo de sua honestidade e sua palavra. E então, quem recebe um pinto na boca...

...sim, era passivo. E lembre-se, as mulheres eram "naturalmente" passivas. Para um romano, quem fazia o sexo oral era passivo, e quem recebia, ativo. Portanto, um homem fazer sexo oral era uma transgressão à etica da Pudicitia em todos os aspectos. Imagine, ele não apenas era passivo, mas passivo a uma mulher! 

Quase um passivo super passivão. Impensável!

Obviamente romanos não tinham acesso a hormônios e cirurgias para fazer uma transição completa, mas haviam homens biologicamente identificados como homens que escolheram viver como mulheres e romanos do sexo feminino  que tentaram viver como homens. Explico o "tentaram" antes de ser acusada de sexismo: o problema estava nas leis romanas e na sociedade extremamente patriarcal e de valores super machistas, sendo a identidade e entidade masculina e feminina protegidas por diversas leis especificas. E pra que servem leis morais? Pra transgredi-las! diriam alguns romanos em coro. 

Até uma mulher poderia ser masculina/ativa, mas... se chupasse outro ser... hum... então não era tão macho não. Existe um poema de Marcus Valerius Martialis que fala sobre uma mulher, Philaenis, que levanta pesos, pratica esportes, fica bêbada e fode homens e mulheres. Martialis diz que ela não ganha nota 10 no quesito masculinidade porque ela chupa as mulheres que ela fode, coisa que um homem romano ativo nunca faria. 

Aqui o poema pra vocês darem uma lida:

[Marcus Valerius Martialis, c. AD 40–c. 104]

Epigram LXVII, Book VII

Philaenis the bulldyke buggers boys
and hornier than a married man
she screws eleven girls a day.
Tucking her skirt up, she will play
at handball; smear herself with grit
and wrestle; with the bum-boys swing
the dumb-bells round; grow foul with sweat,
and even let the trainer’s whip 
correct her; next, she sinks her booze,
and pukes it up, in time for dinner;
wolfs a share of training rations
sixteen times over; then she swills.
After all this, it’s time to fuck.
Pricks she won’t suck; she thinks it’s sissy,
but gobbles up the cracks of girls.
Philaenis, may the gods bestow
what you think butch – a cunt to lick.


O próprio curso alternante e alternado da Historia, cheio de micro-historias que pontuam toda mega narrativa - a despeito dela ser contada e limitada pelos vencedores  - anuncia atitudes transgressoras que caracterizam mais um movimento artistico pessoal que  uma suposta linearilidade evolutiva conceitual. 

Explico: o conhecimento de certos documentos e acesso aos antigos agrega muita informação que desqualifica os discursos de igualdade e valida a transgressão: a facada na homogeneidade tão cara à cultura. Cultura que alinha versus Arte que transgride. Portanto, talvez o erro não esteja na crença e aceitação das desigualdades, mas na violência politica que almeja colocar todo mundo na mesma fôrma e utiliza moldes datados - na maioria vinculados a segmentos sociais privilegiados. A igualdade não existe; é a diferença que faz a diferença no mundo contemporâneo. E isso nos torna iguais na diferença.

Deixo aí pra vocês uma referência bibliográfica legal. A fonte é essa, e cada historiador interpreta vestigios materiais e fontes de acordo com sua época e referências. Se não concorda com o meu ponto, vá nas fontes e faça sua interpretação. Exercita tua crítica e fode o Império!


Fontes:

Amor, Desejo e Poder na Antiguidade, ed. Unicamp, São Paulo, 2003

The Lesbian Pillow Book, ed. Alison Hennegan, London, Fourth Estate, 2000.
http://www.gillianspraggs.com/translations/philaenis.html



Um comentário:

  1. eu me sinto muito homem quando chupo a boceta de uma mulher, rsrs.

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