Contra-manifesto


Eu não pretendo promover a cultura fetichista. Continuo querendo estar na marginalidade. Sinceramente não quero ser considerada normal e ser aceita numa sociedade que não me agrada. Faço parte dela, claro, mas tem lugar pros marginais. Tem lugar pros loucos e sempre teve, o que mudou foi a visão e a condenação pra maioria da sociedade ocidental. Já queimaram as bruxas, e condenaram hereges, mas eu não negaria a mim mesma por causa da morte que vem pra todos.

Isso me lembra um livro da Roudinesco, se não me engano, onde ela fala que os gays - enquanto comunidade - começaram com um discurso de transgressão e mudança TOTAL e terminaram, nos anos noventa, querendo fazer parte de um rebanho social. Gente, sociedade civil democratica UTOPICA. Veja bem, utópica. Democracia é utopia. Nada contra casamento gay - aqui entramos no campo da liberdade, cada um faz o que quer - mas eu seguiria com minhas convicções e sem a necessidade de ser aceita pelos meus "pais". Nisso eu discordo da Elis Regina, não sou como eles. Fiel sim, à não agressão e liberdade pois ja passamos da idade média e bater na pessoa por conta da opção sexual é animalesco; mas contra a normalidade e a favor de um NOVO discurso.

Não condeno, obviamente, a "luta" de quem faz pela cultura BDSMista no Brasil. Mas sério, vc quer mesmo adaptra-se e ser aceito por algo que está podre por dentro? Porque não continuarmos diferentes? Se nos atacam, voce tá preocupado com a mídia (mídia? alguém ouviu falar de mídia séria no Brasil?) Eu não to. Bota o dedo na consciência e no ego, na vaidade. Que mania de aceitação hipócrita é essa? Pra ir na Luciana Gimenez e ver um povo que nem entende o que você fala? Pra ter documentários premiados sobre nós? Pra vizinha não te olhar com cara torta (quando vc tinha 17, vc adorava isso!)? Pra opinião pública não te condenar? A opinião pública que se exploda.

A Cultura ampara, agrega, e o preço da disputa de "culturas" é sanguinolenta. Cultura normativa, tô fora. A minha arte não está a serviço de nada nem de ninguém, ela corta a cultura com a faca; causa desconforto e reflexão.

No final, todo mundo quer um lugar de respeito sob os holofotes da igualdade. Eu quero me arriscar.

3 comentários:

  1. interessante, eu sempre pensei de uma forma muito similar, jamais quis expor nada meu a não ser para aqueles com quem eu desejo dividir minha intimidade, jamais quis sair do gueto pois eu acho que boa parte da excitação da coisa é justamente por ser um tabu, proibido e marginalizado. Não quero dizer ao mundo que adoro latex, adoro quando as pessoas ficam curiosas e olhando sem saber exatamente o que eu estou vestindo, adoro quando perguntam: Borracha ? kkkkk, o mesmo vale para o BDSM que nada mais é do que uma curtição e sem nenhuma carga de obrigatoriedade, deixe a sociedade viver da forma como ela quiser pois eu quero o mesmo, sem interferencias......ótimo texto !!

    ResponderExcluir
  2. "É preciso que tenhamos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza, e o direto de ser iguais quando a diferença nos inferioriza".(Boaventura Santos). É uma citação que gosto muito e que, de certa maneira, tem a ver com o discutido por você no seu texto. Realmente, viver o fetiche é algo que pode ser considerado uma marca da diferença. Portanto, um direito. Já o segundo direito, o de ser tratado com igualdade, apesar de soar lindamente, é apenas uma utopia em se tratando das relações interpessoais. Mais ainda se o fetiche passar a ser escancarado - talvez por isso, mesmo que não envergonhem-se de quem são e do que gostam, muitos prefiram a escuridão das "dungeons".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pela ótima contribuição, Rainha Sarah ;)
      Um beijo pra ti.

      Excluir

Dommenique Luxor. Tecnologia do Blogger.